Emoções. É basicamente apenas disso que a vida é feita.
Toda busca por algo maior é baseada na quantidade de emoção que ela é capaz de trazer. Um emprego melhor te trará mais chances de se emocionar com outras coisas que não os problemas financeiros habituais; um relacionamento novo te trará de volta emoções perdidas com a relação desgastada anteriormente; uma nova comida, um vinho diferente, uma viagem estabelecida, um filme esperado, um livro terminado... tudo te proporcionará nada mais do que novas emoções.
Uma música pode ser tão somente uma música e ainda assim será a trilha dessas emoções. O silêncio pode ser uma prece, mas não há melhor religião do que a música. É ela quem está com você em todos os momentos emocionantes da sua vida, sejam eles bons ou ruins ou devastadores. A melodia que prende atenção, a letra que desperta as sensações e a interpretação que transcende o que você sente e fala, literalmente, por você.
A música anda doente. Talvez esteja acompanhando a tendência atual de que é normal e aceitável fugir dos problemas e camuflar as sensações para não nos causar péssimas emoções. Há uma geração de dopados crescendo a cada ano, consumindo mais pílulas e injetando menos música. Lambem a vida mas não sentem o seu gosto, não ouvem sua sinfonia, não se embriagam com o que de mais belo a melodia pode trazer: a real noção do que é se viver.
A música está na UTI. Mas sempre há uma ampola de adrenalina disposta a manter os aparelhos ligados. Nesse final de semana, recebi minha dose.
Há três décadas ela se foi fisicamente. Mas para muitos, é como se nunca tivesse ido. E para os que nem souberam de sua partida, é como se agora ela tivesse retornado. Acompanhada. Muitos a descobriram como mãe de Maria Rita. Outros tantos rechaçaram o fato da filha estar tributando a mãe. Mas o que importa é que Elis Regina está no ar. Você sempre a respirou, sempre a ouviu, pouco conheceu e ainda assim muito já se envolveu.
Seja no barzinho da faculdade, na sala de seus pais, no comercial da TV ou na trilha da novela. Em algum lugar, você já a ouviu. Aquela voz lhe é familiar, esteve em suas emoções, te acompanhou em algumas taças, em alguns tragos.
Não preciso esclarecer o que Maria Rita está fazendo pela mãe com sua série de shows cantando suas músicas e apresentando ela ao seu próprio público e tomando para si o que lhe sempre fora de direito: a carga genética e cultural de Elis.
Ao ver seu show, não senti como sendo esse tão aclamado tributo. Nem vi como uma manifestação à maior cantora que o Brasil conheceu. Vi simplesmente emoção no palco. Vi a música vencendo, transcendendo preconceitos, resgatando a alegria de se sorrir após o choro incontrolável.
Vi pessoas se emocionando simplesmente por presenciar uma união nunca desfeita. mas sempre apontada e criticada com veemência quase despudorada. Coisa que confesso nunca ter presenciado de forma tão exposta. Ver Maria cantando era como se traíssem Elis. Prestavam, assim, dos maiores desserviços à música e à emoção.
Ao vê-la chorando ou se esforçando para segurar o choro, sorrimos. Não por masoquismo, mas por sentir a emoção em sua forma mais pura e real. É uma filha falando de sua mãe. Uma cantora falando de outra. Uma música se conectando a outra sem perder a essência e sem perder a autenticidade. Não há imitações, não há semelhanças apesar de ser tudo muito parecido. A voz soa igual, o sorriso que faz os olhos se franzirem também, mas há sempre a predominância da artista Maria Rita ante a filha Maria Rita. A interpretação, a vontade de se lavar das criticas e dos dedos em riste, tudo lembra a mãe sem que seja um cover. É a genética da música vencendo.
Mesmo quando disfarça o choro com pequenas ironias. Mesmo quando reconhece o legado passado. Mesmo quando respeita a história pregressa. Ainda assim, Maria Rita não é a mãe. É simplesmente Maria.
Não me lembro de ouvi-la mencionar o nome da mãe. A trata sempre por “ela”, na maioria das vezes. E isso nos acomoda e nos aconchega e nos deixa na sala de visita ou nos convida para um bar. Pois é essa segurança e familiaridade que todos temos: quase nunca nos referimos às nossas mães por seus nomes. É sempre “minha mãe” ou um “ela”. Assim, basicamente, no auge da intimidade e respeito.
E quem a assiste se sente justamente dessa forma: na sala de visitas da casa das duas. A música é sua casa, o palco é seu balcão e quando convidados, nos portamos muito bem. Cantamos as músicas sem nos esquecer da origem e sem pesar sobre a expectativa. Não há, aliás, expectativas. Ninguém vai para ver Elis, apesar de querer celebrá-la. A artista é Maria Rita, que hoje se consolida como a maior cantora deste país. Precisou de muita exposição refletida e inversa para conseguir ter a coragem de se impor. Talvez esteja aí sua principal herança. Coragem pode ser algo genético, enfim.
Nesta tríade mãe-filha-mãe que se forma, há beleza, há ternura, há acolhimento. Nos sentimos envolvidos sem invadir. A invasão acontece na penumbra, com apenas um dedo apontado: o seu próprio para si mesmo. Essa é a principal barreira transposta.
Agora, estamos apenas celebrando. Não o tributo, não a reunião, não o merecimento. Mas o resgate da música e da emoção. Pois é apenas disso que tudo isso se trata: do prazer de degustar da mais pura e honesta emoção.
Não era Elis quem merecia, tampouco Maria Rita: a música precisava disso.
Porque é basicamente apenas disso que a vida é feita.